Por Alessandro Lima*
Introdução
A teologia moral católica reconhece a licitude de votar em um mal menor durante as eleições liberais, desde que sob rigorosas condições e sem cooperação com os erros do candidato. No entanto, os fiéis devem manter a vigilância mental para jamais equiparar essa escolha a um bem maior ou celebrar a ascensão de uma figura moralmente falha ao poder. É aceitável apenas comemorar o afastamento de um perigo maior, reconhecendo que a situação continuará difícil e que o político eleito ainda precisará ser combatido em suas falhas. As estratégias de propaganda e a polarização política frequentemente distorcem esse discernimento, fazendo com que o eleitor baixe seus padrões morais e passe a justificar o injustificável. Por fim, a verdadeira transformação de uma nação não depende de ilusões partidárias, mas da conversão espiritual, da vivência das virtudes cristãs e da busca primordial pelo reino dos céus.
O Dilema
Quem leva a fé católica a sério e vota numa democracia secular costuma bater no mesmo problema: quase nunca existe um candidato cujo programa seja realmente coerente com a doutrina. Na hora de votar, a sensação é de que a escolha não é entre o bem e o mal, mas entre dois erros.
A teologia moral católica conhece essa situação. Ela admite que, em condições bem rigorosas, é lícito votar no “mal menor”, porque a decisão exige prudência diante de um cenário imperfeito. Mas há um alerta importante: escolher o mal menor não pode virar desculpa para anestesiar a consciência, nem para justificar o que está errado. Aqui vão cinco pontos para não cair nessa armadilha.
- Votar no mal menor não é escolher um bem maior
Impedir que algo gravíssimo avance é uma coisa. Alcançar um bem de verdade é outra. A moral católica diz que, quando não há uma opção plenamente reta, é tolerável votar no mal menor, desde que você não coopere com os erros do candidato, isto é, rejeite abertamente as pautas dele e vote apenas para evitar um dano maior ao bem comum. Mas ser tolerável não torna a escolha uma virtude.
Um exemplo ajuda. Imagine um pai cujo filho adulto vivia com uma mulher casada na Igreja, ou seja, em adultério. Depois o filho termina essa relação e vai morar com uma mulher solteira, sem casar no sacramento. Houve uma melhora: acabou o adultério e a injustiça contra outra família. O pai pode se alegrar com isso, assim como uma mulher que usa métodos naturais para espaçar gestações, por grave necessidade de saúde, se alegra por evitar um risco, e não por deixar de ter um filho. Mesmo assim, a situação do filho continua errada. Ele segue em pecado, e o que houve foi só a redução de um dano, não algo para comemorar.
O eleitor precisa ter essa mesma honestidade consigo:
“Infelizmente eu opto por este candidato porque o considero um mal menor em relação ao outro, mas se eu tivesse uma opção verdadeiramente católica, este candidato estaria definitivamente riscado das minhas escolhas.”
“Votar em um mal menor é algo diferente de escolher um candidato porque ele é bom […] A vitória de um mal menor não pode ser diretamente comemorada.”
Quando a gente confunde o alívio de ter evitado o pior com a conquista de algo bom, acaba se acomodando e assistindo à deterioração da sociedade quase de camarote.
- A propaganda nos ajuda a nos enganar
O marketing político trabalha com emoção, simpatia e medo, e não com a realidade dos fatos. O objetivo é fazer você sentir que está fazendo uma escolha positiva.
A mente julga por comparação. No cinema, ao lado de um balde de pipoca de R$ 10, o balde maior por R$ 15 parece uma pechincha. A pessoa olha o tamanho e esquece que está pagando R$ 5 a mais por algo de que não precisava. Na política acontece o mesmo: ao lado de uma ameaça abjeta, um candidato que faz um dano moderado passa a parecer não só “menos pior”, mas até seguro e desejável.
Daí vem a racionalização. Para aliviar o desconforto de apoiar alguém com defeitos graves, o próprio eleitor começa a inventar desculpas: “no fundo ele tem boas intenções”, “os adversários exageram nos defeitos dele”. Cria-se uma boa intenção imaginária só para a escolha pesar menos. Sem senso crítico, a gente acaba comprando a ideia de que o defeito embalado é virtude.
- Repetir o voto pragmático desgasta o padrão moral
Eleição após eleição escolhendo o mal menor, o padrão ético de uma sociedade vai caindo aos poucos, como um veneno em dose pequena. O que antes causaria indignação passa a ser visto como inevitável.
Com o tempo, o eleitor se acostuma a comparar só desgraças. A referência do que é objetivamente bom some do horizonte e a pessoa passa a procurar apenas o dano menos doloroso. Isso também alimenta a polarização: o candidato rejeitado vira “o mal absoluto”, e daí para o desprezo e o ódio pessoal é um passo.
“Em vez de ter diante dos olhos o que é sempre objetivamente bom, a pessoa começa a falar: ‘Ah, mas nesse caso aqui, o que é menos prejudicial?’ E a visão moral da pessoa começa a ser prejudicada.”
No fim, perde-se a capacidade de debater com calma, de reconhecer a verdade onde ela estiver e de proteger a própria alma do ressentimento político.
- O “menos pior” eleito não é aliado, é o próximo adversário
Quando o candidato do mal menor ganha, isso não é vitória ideológica nem motivo para relaxar. Significa apenas que a degradação vai acontecer mais devagar do que aconteceria com o outro. Por isso, depois da apuração, o cidadão maduro deve passar à oposição, com serenidade.
Uma vez contido o perigo maior, o eleito, cujas propostas continuam incompatíveis com a verdade e a ordem moral, vira o adversário imediato. Mas a teologia moral coloca uma condição: essa oposição precisa ser prudente, para não desestabilizar tudo e abrir caminho para o retorno de um mal ainda maior na eleição seguinte.
“Não há o que comemorar diretamente, você apenas perdeu menos.”
A única comemoração legítima é por ter escapado da ameaça mais grave. Quanto a quem está no poder, é preciso vigiar sem parar e cobrar quando errar.
- A transformação de verdade acontece nos corações, não nas leis
Um erro comum hoje é pôr toda a esperança de restaurar a cultura nas leis, no ativismo partidário ou na força do Estado. Só que uma lei excelente não funciona numa sociedade moralmente degradada. Quando a maioria vive na desordem e corre atrás de qualquer paixão, qualquer norma reta encontra resistência feroz.
Alguém dirá: “Basta a polícia fazer cumprir a lei.” A história mostra que não é assim. Se a mudança não aconteceu dentro das pessoas, a coerção externa não sustenta a ordem. Hoje, com as redes sociais, a mobilização popular e a turbulência crescem muito rápido, o que torna governar quase inviável e força os governantes a recuar diante de uma massa moralmente corrompida.
A renovação de verdade, a que dura, não vem de decreto nem de estratégia eleitoral. Vem da graça agindo em silêncio e das virtudes vividas no dia a dia: no trabalho honesto, na fidelidade conjugal, no sacrifício pela família, em aceitar humilhações e em buscar a santidade.
“Buscai primeiro o reino dos céus e tudo mais vos será acrescentado.”
Sem a conversão das almas, qualquer estrutura política ou legal é uma casa construída sobre a areia.
Conclusão
Em tempos difíceis, é preciso olhar a realidade sem fantasia. Votar no mal menor pode ser uma necessidade prudente em situações extremas, mas só se a visão moral do eleitor continuar limpa. Isso significa não se deixar levar pelo marketing, não comemorar vitórias defeituosas e não deixar que o pragmatismo da política rasteira rebaixe o que você enxerga como bom.
Fica uma pergunta para você: as justificativas que você vem dando nas últimas eleições estão te aproximando da verdade ou só acomodando sua consciência à conveniência do momento?
* Texto escrito com base no sermão do Pe. Luiz Fernando Pasquoto, IBP disponível em https://www.youtube.com/watch?v=UFMU7aKmlJE. Último acesso em 13/10/2026.










