Cânon Bíblico
Por Alessandro Lima
O cânon da Bíblia hebraica, tal como o judaísmo rabínico o conhece, só ficou definido depois do surgimento do cristianismo, e boa parte dessa definição ocorreu no século II d.C. Isso aconteceu num período de guerra contra Roma, de esperanças messiânicas e de separação cada vez maior entre judeus e cristãos. Uma das figuras centrais desse momento é o rabino Akiba ben Joseph.
O dito sobre os Evangelhos e Ben Sira
Por volta de 132 d.C., segundo a tradição, Akiba teria dado uma declaração sobre quais escritos não deviam ser tratados como sagrados. Ela está registrada na Tosefta Yadayim 2,13:
“Os Evangelhos e os livros dos hereges não contaminam as mãos. Os livros de Ben Sira e todos os livros escritos daí em diante não contaminam as mãos.”
Para entender o trecho, é preciso conhecer a linguagem jurídica da época. Dizia-se que os livros sagrados “contaminavam as mãos”, isto é, exigiam purificação ritual de quem os tocava, por causa do alto grau de santidade. Afirmar que um livro não contaminava as mãos equivalia a negar que fosse inspirado. Ao colocar Ben Sira (Eclesiástico) na mesma frase que os escritos cristãos, o texto trata os dois casos juntos. É nessa associação que Gary Michuta, apologista católico, apoia seu argumento [1]: para os rabinos, recusar os deuterocanônicos também ajudava a conter a influência dos evangelhos.
A revolta de Bar Kokhba
A declaração surge num momento de crise. A Segunda Revolta Judaica contra Roma (c. 132-135 d.C.) foi liderada por Simão bar Kokhba, e Akiba foi um dos seus maiores apoiadores. Segundo a tradição rabínica, ele o reconheceu como messias, aplicando-lhe a profecia de Números 24,17, “uma estrela surgirá de Jacó”. Daí o apelido Bar Kokhba, “filho da estrela”.
Os cristãos de origem judaica na Judeia não aceitaram essa pretensão. Recusaram-se a participar da guerra e a reconhecer Bar Kokhba como messias, em linha com o alerta de Jesus sobre falsos messias (Lucas 21,8). Os rebeldes viram nisso uma traição, e há testemunhos antigos, como o de Justino Mártir, de que os cristãos foram perseguidos nesse contexto.
Septuaginta e texto hebraico
A revolta fracassou, e os judeus já haviam perdido o Templo em 70 d.C. O judaísmo rabínico precisou se reorganizar sem o culto sacrificial, e Akiba teve papel importante nisso. Ele desenvolveu um método de interpretação que dava peso a cada letra e a cada partícula do texto hebraico, o que exigia um texto fixo e uniforme.
Nesse processo, a Septuaginta grega foi sendo deixada de lado. Ela era a tradução que incluía os deuterocanônicos e que os cristãos usavam como sua Bíblia. A tradição rabínica ficou com o texto hebraico, depois chamado massorético, e com os livros nele preservados.
O que isso significa para a discussão do cânon
Michuta tira dois pontos desses fatos:
- Os deuterocanônicos eram usados pelos cristãos da Judeia. Se foi preciso excluí-los de forma expressa, é porque circulavam entre eles. Isso ocorreu cerca de 30 anos depois da morte do último apóstolo, o que sugere que já faziam parte das Escrituras recebidas pela Igreja.
- O cânon rabínico não obriga os cristãos. Ele foi fixado depois de Cristo, num ambiente de oposição ao cristianismo e de apoio a um líder que os cristãos não reconheciam como messias. Para Michuta, a exclusão de Ben Sira e dos demais livros não tem autoridade sobre a Igreja.
Notas
[1] MICHUTA, Gary G. O Caso do Deuterocanônico – Evidências e Argumentos. Tradução de Alessandro Lima. 1a edição. Edições Veritatis Splendor, 2025. Brasília, DF.










