Cânon Bíblico
Por Alessandro Lima
Uma resposta patrística à objeção de que os Deuterocanônicos jamais foram utilizados para fundamentar a doutrina cristã
Uma das objeções mais repetidas contra os livros Deuterocanônicos consiste na afirmação de que os primeiros cristãos não os consideravam verdadeiramente como Escritura.
Segundo essa objeção, os Padres da Igreja poderiam até conhecer Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e os dois livros dos Macabeus, mas os utilizariam apenas como literatura edificante. Não poderiam, portanto, ser empregados para estabelecer ou confirmar doutrinas.
Essa afirmação, entretanto, não corresponde ao conjunto dos testemunhos patrísticos.
O problema torna-se particularmente evidente quando deixamos de perguntar simplesmente “um Padre citou esse livro?” e fazemos uma pergunta muito mais precisa:
Como os Padres trataram esses escritos quando os citaram?
E é aqui que a evidência patrística se torna particularmente interessante.
O estudo de Gary G. Michuta [1] reúne numerosos testemunhos nos quais os Deuterocanônicos não aparecem simplesmente como literatura cristã útil, mas são introduzidos com expressões como “Escritura”, “Escritura Sagrada”, “Escritura Divina”, “palavra de Deus”, “palavras do Espírito”, “profeta” e até como fonte de autoridade para o ensino doutrinal.
Não estamos, portanto, diante de uma ou duas citações isoladas.
Estamos diante de um fenômeno que atravessa os primeiros séculos da Igreja.
1. Clemente de Roma: Sabedoria e Judite entre os escritos utilizados pela Igreja
Um dos testemunhos mais antigos encontra-se em São Clemente de Roma, na Primeira Carta aos Coríntios.
Em 1 Clemente 27,5-7, Clemente utiliza Sabedoria 12,12 juntamente com Mateus 24,32. Em 1 Clemente 5,2-6, faz também referência a Judite, relacionando-a com Ester.
Esses testemunhos são importantes porque Clemente pertence a uma geração extremamente próxima dos Apóstolos.
Ainda não estamos no século IV. Não estamos diante de Agostinho ou de um concílio africano.
Estamos nos primeiros tempos da literatura cristã pós-apostólica.
E já encontramos os livros posteriormente chamados de Deuterocanônicos sendo empregados no contexto da instrução cristã.
2. São Policarpo: Tobias utilizado ao lado de 1 Pedro e Isaías
Outro testemunho antigo é São Policarpo.
Na Carta aos Filipenses 10,1-3, Policarpo utiliza Tobias 4,10 e 12,9, juntamente com textos de 1 Pedro e Isaías.
O dado merece atenção.
Tobias não aparece isolado como uma simples história judaica. Ele é empregado dentro da argumentação cristã, no mesmo ambiente literário em que aparecem escritos que os cristãos reconheciam como Escritura.
3. A Didaquê: Eclesiástico empregado juntamente com Deuteronômio e Provérbios
A Didaquê, um dos mais antigos documentos cristãos conhecidos, em 4,3-5 utiliza Eclesiástico 4,31, juntamente com Deuteronômio e Provérbios.
Temos aqui uma característica recorrente na literatura cristã antiga: o texto deuterocanônico aparece integrado ao patrimônio literário utilizado para instruir moralmente os cristãos.
Isso é particularmente relevante porque mostra que o conhecimento e o uso desses livros não foram uma invenção tardia da Igreja medieval.
4. Tertuliano: Sabedoria utilizada para argumentação teológica
Com Tertuliano entramos em um período em que o uso apologético dos Deuterocanônicos se torna ainda mais evidente.
Em A Prescrição contra os Hereges 7, Tertuliano cita Sabedoria 1,1 juntamente com textos das cartas pastorais.
Em Contra Marcião 3,22, utiliza Sabedoria 2,12 juntamente com Isaías.
Em Contra os Valentinianos 2, emprega Sabedoria 1,1 juntamente com Mateus.
E em Resposta aos Judeus 4, utiliza Josué e Macabeus conjuntamente.
O padrão é importante:
Sabedoria não é tratada como um escrito completamente estranho ao universo das Escrituras.
Ela participa da argumentação teológica cristã.
5. Santo Irineu: Sabedoria utilizada com aprovação
Santo Irineu de Lião, um dos grandes testemunhos da Tradição apostólica do século II, utiliza Sabedoria 6,18-19 em Contra as Heresias 4,38,3.
O testemunho é registrado como uma citação feita com aprovação.
Isso possui especial importância apologética.
Irineu escreveu precisamente em um contexto de combate às heresias e de defesa da tradição recebida dos Apóstolos.
O Deuterocânon, portanto, não aparece simplesmente como literatura histórica judaica.
Ele é incorporado à argumentação cristã.
6. Clemente de Alexandria chama Eclesiástico de “Escritura”
Aqui chegamos a uma evidência ainda mais explícita.
Clemente de Alexandria, em O Pedagogo 1,8, cita Eclesiástico 21,7 como “Escritura”.
Em O Pedagogo 2,5, cita Eclesiástico 21,20 novamente como “Escritura”.
Em 2,8, faz o mesmo com Eclesiástico 39,26-27.
E em 2,10, cita Eclesiástico 23,19 como “Escritura”.
Isso já ultrapassa o argumento de que “os Padres simplesmente conheciam o livro”.
Clemente chama o livro de Escritura.
E em Stromata 2,23, cita ainda Tobias 4,15 como “Escritura”.
Como se isso não bastasse, em Stromata 4,16 introduz Sabedoria 3,2-4 com a expressão:
“A Sabedoria Divina diz…”
Temos, portanto, uma terminologia que atribui ao texto uma autoridade muito superior à de uma simples obra edificante.
7. Orígenes: “autoridade das Sagradas Escrituras”
Orígenes oferece alguns dos testemunhos mais fortes.
Em Primeiros Princípios 1,2,5, ele utiliza Sabedoria 7,25 como apoio daquilo que chama de “autoridade da Sagrada Escritura”.
Em Primeiros Princípios 2,1,5, ao falar da ressurreição dos mártires, escreve:
“Mas para que possamos acreditar com base na autoridade das Sagradas Escrituras que tal é o caso, ouça como no livro dos Macabeus…”
O texto é extraordinariamente significativo.
Orígenes não diz simplesmente:
“Existe uma história interessante nos Macabeus.”
Ele introduz o testemunho como fundamento daquilo que pode ser crido “com base na autoridade das Sagradas Escrituras”.
Em Primeiros Princípios 2,8,3, cita Eclesiástico 43,20 como “Escritura Sagrada”.
Em 2,9,1, chama Sabedoria 11,20 de “Escritura”.
E em 3,1,14 utiliza Sabedoria 7,16 sob a fórmula:
“conforme declaram as Escrituras…”
Mas os testemunhos não terminam aí.
Em Contra Celso 6,7, Orígenes chama Eclesiástico 21,18 de “Escrituras Sagradas” e de “palavras divinas”.
Em Contra Celso 7,12, fala do “ensino da Santa Escritura”.
E em 8,46 refere-se aos Macabeus como “Escritura histórica”.
É difícil sustentar, diante desse conjunto, que Orígenes simplesmente considerava os Deuterocanônicos literatura humana sem autoridade.
8. São Cipriano: “O Espírito Santo fala nas Sagradas Escrituras”
No século III, encontramos São Cipriano de Cartago.
Em sua Carta 64,2, ele cita Eclesiástico 7,29-31 como algo que foi “estabelecido no Espírito Santo”.
Em A Conduta das Virgens 2,1, cita Sabedoria 3,11 juntamente com os Salmos como palavras do Espírito.
Ainda mais explícito é o tratado Sobre as Boas Obras e as Esmolas 8,2.
Cipriano introduz Eclesiástico 3,30 dizendo:
“O Espírito Santo fala nas Sagradas Escrituras e diz…”
Pouco depois, em 8,5, apresenta Eclesiástico 29,12 como “palavras de Deus” e “instruções divinas”.
Portanto, temos aqui três categorias de linguagem:
- Espírito Santo;
- Sagradas Escrituras;
- palavras de Deus.
E todas elas são aplicadas a textos que hoje os protestantes normalmente classificam como “Apócrifos”.
9. Cipriano usa Tobias para fundamentar uma doutrina sobre as esmolas
Há ainda um aspecto apologético particularmente interessante.
Em Sobre as Boas Obras e as Esmolas, Cipriano utiliza Tobias 12,8-9 para ensinar sobre a eficácia espiritual da esmola.
A passagem afirma:
“A oração é boa, com jejum e esmolas; porque a esmola livra da morte e purifica os pecados.”
Assim, Tobias não aparece apenas como uma narrativa edificante.
Ele é utilizado na argumentação cristã para fundamentar um ensinamento moral e soteriológico. O estudo de Michuta registra esse uso entre os testemunhos patrísticos relevantes.
E aqui encontramos uma questão que merece ser colocada diretamente ao leitor protestante:
Se Tobias era apenas uma obra humana sem autoridade escriturística, por que um Padre da Igreja o utilizaria para fundamentar um ensinamento cristão?
10. Santo Agostinho: a Igreja recebeu Sabedoria e Eclesiástico “como autoridade”
Com Santo Agostinho, o testemunho torna-se ainda mais explícito.
Em A Cidade de Deus 17,20, Agostinho reconhece que Sabedoria e Eclesiástico, embora não tenham sido escritos por Salomão, foram recebidos pela Igreja, especialmente pela Igreja Ocidental, “como autoridade”.
Essa afirmação é preciosa.
Agostinho não está dizendo simplesmente:
“A Igreja lê esses livros.”
Ele emprega a palavra autoridade.
Além disso, em A Cidade de Deus 18,36,1, explica que os judeus não consideravam Macabeus parte de seu cânon, enquanto a Igreja o utilizava em razão do testemunho dos mártires.
11. Agostinho chama Sabedoria e Eclesiástico de “Escritura”
O testemunho agostiniano não se limita à expressão “autoridade”.
Em A Trindade 4,20, Agostinho chama Sabedoria 7,25-27 e 9,10 de “Escritura”.
Em A Trindade 11,11, chama Sabedoria 11,21 de “Escritura Sagrada”.
Em A Trindade 13,16, utiliza Sabedoria 12,18 como “Escritura Sagrada”.
Em A Trindade 14,1, chama Sabedoria 6,26 de “Escritura”.
E em A Trindade 15,5, faz novamente referência a Sabedoria como “Escritura”.
Agostinho também cita Eclesiástico como Escritura em diversas outras obras.
Em A Santa Virgindade 31 e 44, utiliza Eclesiástico 3,18 como “Escritura”.
Em Manual sobre Fé, Esperança e Amor 66, cita Eclesiástico 40,1 como “Escritura”.
Em O Cuidado devido aos Mortos 16, cita Eclesiástico 3,22 como “Escritura”.
Portanto, temos novamente o mesmo fenômeno:
o Deuterocânon não está simplesmente sendo lido; ele está sendo utilizado como Escritura.
12. Agostinho emprega os Deuterocanônicos para ensinar doutrina
A questão torna-se ainda mais interessante quando observamos o conteúdo das citações.
Agostinho utiliza Sabedoria 8,21 para defender a doutrina de que a continência é dom de Deus.
Em Sobre a Predestinação dos Santos, ele afirma que a autoridade de Sabedoria havia sido utilizada por homens grandes e eruditos que comentaram as declarações divinas muito antes dele.
Em Contra Juliano 6, cita Sabedoria 7,28 como Escritura.
E em vários textos utiliza Sabedoria e Eclesiástico em argumentações teológicas.
Isso destrói uma falsa alternativa:
“Ou um livro é explicitamente colocado numa lista canônica moderna, ou os Padres não poderiam utilizá-lo para doutrina.”
A história patrística é muito mais rica do que isso.
13. O caso de São Jerônimo é mais complexo — e justamente por isso é importante
Um apologista honesto não deve esconder os testemunhos que complicam a narrativa.
São Jerônimo possui uma posição peculiar e, em alguns momentos, restritiva em relação aos Deuterocanônicos.
O próprio estudo de Michuta mostra que Jerônimo posteriormente adotou uma posição contrária à canonicidade desses livros, associando sua concepção de cânon àquilo que considerava o texto hebraico normativo.
Entretanto, há um detalhe que frequentemente desaparece das discussões.
O próprio Jerônimo, em escritos posteriores, cita Deuterocanônicos utilizando linguagem muito significativa.
Na Carta 77,4, cita Baruc 5,5 entre as “trombetas dos profetas”.
Na Carta 118,1, cita Eclesiástico 3,7 e 4,28 como “Escritura”.
Na Carta 118,2, cita Eclesiástico 22,6 como “Escritura Divina”.
Isso demonstra por que é metodologicamente perigoso selecionar apenas uma declaração de um Padre e apresentá-la como se representasse toda a sua prática literária.
14. Rufino: os Deuterocanônicos eram lidos na Igreja
Rufino também apresenta uma posição particular.
Em seu Comentário sobre o Símbolo dos Apóstolos, ele classifica determinados livros como “eclesiásticos” e afirma que eram lidos nas Igrejas, embora não os coloque na mesma categoria dos livros canônicos.
Mas, novamente, sua prática literária é mais interessante.
Em Bênção de Gad 3, cita Eclesiástico 34,9 como “Escritura”.
Em Bênção de José 3, cita Eclesiástico 11,30 como “Sagrada Escritura”.
E em seu Comentário sobre o Símbolo dos Apóstolos 5, utiliza Baruc 3,36-38 dizendo que “o profeta predisse”.
Isso mostra uma tensão histórica real entre classificações formais e prática exegética.
15. Santo Ambrósio: Judite chamada de Escritura
Santo Ambrósio também aparece entre as testemunhas.
Em Em relação às viúvas 7,37-42, refere-se às façanhas de Judite como “Escritura”.
Em Examerão 4,8,31, cita Eclesiástico 27,12 como “Escritura”.
E em Examerão 6,4,17, utiliza passagens de Tobias como provenientes do “livro profético”.
Mais uma vez, os livros que seriam posteriormente rejeitados por grande parte do Protestantismo aparecem dentro da argumentação de um Padre latino.
16. O problema não é “se citaram”; é “com que autoridade citaram”
É aqui que está o verdadeiro ponto da discussão.
Um adversário poderia responder:
“Mas escritores antigos também citavam Homero, Platão ou outros autores.”
É verdade.
Por isso, simplesmente apresentar uma lista de citações não é suficiente.
A questão apologética mais forte é observar a linguagem que acompanha a citação.
Há uma diferença enorme entre:
“Como diz um antigo escritor…”
e:
“A Escritura diz…”
Há uma diferença entre:
“Existe uma história judaica que conta…”
e:
“O Espírito Santo fala nas Sagradas Escrituras…”
Há uma diferença entre:
“Um livro edificante afirma…”
e:
“Com base na autoridade das Sagradas Escrituras…”
E é justamente nesse segundo grupo que encontramos numerosos testemunhos patrísticos.
O estudo de Michuta identifica explicitamente essa categoria: casos em que o Padre afirma a inspiração ou apresenta o texto citado como membro autêntico da Sagrada Escritura.
17. Vinte testemunhos patrísticos
A tabela abaixo reúne vinte exemplos particularmente úteis para uma argumentação apologética.
| Nº | Padre | Obra | Deuterocanônico | Testemunho | Uso/tema |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Clemente de Alexandria | O Pedagogo I,8 | Eclesiástico 21,7 | “Escritura” | Autoridade da Escritura |
| 2 | Clemente de Alexandria | O Pedagogo II,5 | Eclesiástico 21,20 | “Escritura” | Ensino moral |
| 3 | Clemente de Alexandria | O Pedagogo II,8 | Eclesiástico 39,26-27 | “Escritura” | Ensino moral |
| 4 | Clemente de Alexandria | O Pedagogo II,10 | Eclesiástico 23,19 | “Escritura” | Ensino moral |
| 5 | Clemente de Alexandria | Stromata II,23 | Tobias 4,15 | “Escritura” | Ensino moral |
| 6 | Orígenes | Primeiros Princípios I,2,5 | Sabedoria 7,25 | “autoridade da Sagrada Escritura” | Teologia |
| 7 | Orígenes | Primeiros Princípios II,1,5 | 2 Macabeus 7 | “autoridade das Sagradas Escrituras” | Martírio e ressurreição |
| 8 | Orígenes | Primeiros Princípios II,8,3 | Eclesiástico 43,20 | “Escritura Sagrada” | Teologia da criação |
| 9 | Orígenes | Contra Celso VI,7 | Eclesiástico 21,18 | “Escrituras Sagradas” / “palavras divinas” | Teologia moral |
| 10 | Orígenes | Contra Celso VIII,46 | Macabeus | “Escritura histórica” | História sagrada |
| 11 | Cipriano | Carta 64,2 | Eclesiástico 7,29-31 | “estabelecido no Espírito Santo” | Disciplina cristã |
| 12 | Cipriano | A Conduta das Virgens II,1 | Sabedoria 3,11 | Palavras do Espírito | Moral cristã |
| 13 | Cipriano | As Boas Obras e as Esmolas VIII,2 | Eclesiástico 3,30 | “O Espírito Santo fala nas Sagradas Escrituras” | Esmola e pecado |
| 14 | Cipriano | As Boas Obras e as Esmolas VIII,5 | Eclesiástico 29,12 | “palavras de Deus” / “instruções divinas” | Caridade |
| 15 | Agostinho | A Cidade de Deus XVII,20 | Sabedoria e Eclesiástico | “recebeu como autoridade” | Autoridade e profecia |
| 16 | Agostinho | A Trindade IV,20 | Sabedoria 7,25-27; 9,10 | “Escritura” | Cristologia |
| 17 | Agostinho | A Trindade XI,11 | Sabedoria 11,21 | “Escritura Sagrada” | Teologia |
| 18 | Agostinho | A Santa Virgindade 31,44 | Eclesiástico 3,18 | “Escritura” | Moral cristã |
| 19 | Jerônimo | Carta 118,1-2 | Eclesiástico 3,7; 4,28; 22,6 | “Escritura” / “Escritura Divina” | Ensino moral |
| 20 | Rufino | Bênção de Gad 3; Bênção de José 3 | Eclesiástico 34,9; 11,30 | “Escritura” / “Sagrada Escritura” | Ensino moral |
Os testemunhos acima não são uma reconstrução artificial: eles aparecem reunidos na pesquisa patrística de O Caso do Deuterocânon [1].
18. E as doutrinas?
Aqui está talvez a parte mais importante para a apologética.
Não estamos falando somente de palavras.
Os Padres empregaram esses livros para sustentar ensinamentos.
a) A autoridade da Escritura
Clemente, Orígenes, Cipriano e Agostinho utilizam expressões explícitas como “Escritura”, “Escritura Sagrada”, “Escritura Divina” e “autoridade das Sagradas Escrituras”.
b) A cristologia
Sabedoria 7,25-26 possui enorme importância para a reflexão cristológica.
Orígenes a utiliza em sua argumentação; Agostinho também emprega Sabedoria em sua reflexão sobre o Filho. O material patrístico registra repetidamente esse uso.
c) O martírio e a ressurreição
Orígenes utiliza 2 Macabeus 7 precisamente no contexto da autoridade das Sagradas Escrituras.
d) A eficácia das esmolas
Cipriano utiliza Tobias 12,8-9 em sua argumentação sobre as boas obras e as esmolas.
O texto de Tobias é utilizado para afirmar a relação entre esmola, oração, jejum e purificação dos pecados.
e) A oração pelos mortos
Agostinho recorre a 2 Macabeus 12,43-46 em O Cuidado devido aos Mortos, utilizando o episódio do sacrifício oferecido pelos mortos no contexto de sua reflexão sobre a prática de orar pelos falecidos.
f) A criação
Agostinho utiliza 2 Macabeus 7,28 em sua argumentação sobre a criação.
Portanto, o Deuterocânon não era simplesmente um conjunto de histórias interessantes.
Ele podia participar da própria construção da argumentação teológica cristã.
19. A objeção protestante encontra aqui uma dificuldade histórica
É claro que devemos evitar exageros.
Os Padres não possuíam todos a mesma opinião sobre cada detalhe do cânon.
O próprio estudo histórico demonstra que houve diferenças regionais e individuais, sobretudo quando chegamos ao século IV. O próprio trabalho de Alessandro Lima sobre a formação do cânon observa que alguns Padres classificaram determinados livros como “canônicos”, enquanto outros os classificaram como “eclesiásticos”.
Isso, porém, não elimina o problema para a tese protestante.
Porque uma coisa é afirmar:
“Não houve unanimidade absoluta entre todos os escritores antigos sobre a classificação formal de cada livro.”
Outra, completamente diferente, é afirmar:
“Os primeiros Padres consideravam esses livros simples escritos humanos, sem autoridade escriturística e incapazes de fundamentar doutrina.”
A primeira afirmação possui base histórica.
A segunda entra em choque frontal com uma quantidade considerável de testemunhos.
20. O caso de Agostinho é particularmente difícil de contornar
Agostinho é especialmente importante porque não apenas cita os Deuterocanônicos.
Ele afirma que a Igreja os recebeu “como autoridade”.
Além disso, utiliza Sabedoria e Eclesiástico como Escritura em diversos escritos e emprega Macabeus em argumentações teológicas.
E isso coincide com outro dado histórico apresentado nas obras do Prof. Alessandro Lima: os concílios africanos de Hipona e Cartago incluíram Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico e os dois livros dos Macabeus em suas listas das Escrituras.
O Concílio de Hipona, por exemplo, afirma:
“Parece-nos bom que, fora das Escrituras canônicas, nada deva ser lido na Igreja sob o nome ‘Divinas Escrituras’.”
E, na lista apresentada, aparecem Tobias, Judite e os dois livros dos Macabeus.
O III Concílio de Cartago repete igualmente a inclusão desses livros e afirma que o cânon recebido deveria ser confirmado pela Igreja.
Conclusão
A questão dos Deuterocanônicos não pode ser resolvida simplesmente dizendo:
“Os Padres citaram esses livros.”
Isso seria pouco.
A pergunta correta é:
Que autoridade os Padres atribuíam a esses livros?
E aqui os testemunhos tornam-se muito mais difíceis de ignorar.
Clemente de Alexandria chama Eclesiástico e Tobias de “Escritura”.
Orígenes fala da “autoridade das Sagradas Escrituras” ao citar Macabeus e chama Eclesiástico de “Escritura Sagrada”.
Cipriano afirma que o “Espírito Santo fala nas Sagradas Escrituras” ao citar Eclesiástico.
Agostinho afirma que a Igreja recebeu Sabedoria e Eclesiástico “como autoridade”, além de chamar repetidamente Sabedoria e Eclesiástico de Escritura.
Jerônimo, embora possua uma posição restritiva quanto à classificação canônica desses livros, chega a chamar Eclesiástico de “Escritura” e “Escritura Divina” em suas próprias cartas.
Rufino chama Eclesiástico de “Escritura” e “Sagrada Escritura”.
Portanto, a história patrística não permite uma afirmação simplista segundo a qual os Deuterocanônicos seriam apenas livros judaicos edificantes, sem qualquer função doutrinal no cristianismo antigo.
O testemunho dos Padres é muito mais complexo — e, em numerosos casos, muito mais favorável à autoridade dos Deuterocanônicos do que a apologética protestante costuma admitir.
A questão, portanto, retorna ao seu verdadeiro ponto:
Se os Padres da Igreja utilizaram Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e Macabeus como Escritura, como palavras do Espírito Santo, como palavras de Deus, como profecia e como autoridade para fundamentar ensinamentos cristãos, com que fundamento histórico se pode afirmar que esses livros eram universalmente considerados simples “apócrifos” incapazes de servir como fundamento doutrinal?
A evidência patrística exige uma resposta.
E essa resposta não pode ser construída selecionando apenas os testemunhos de Rufino ou de Jerônimo que parecem favorecer uma posição posterior. É necessário considerar o conjunto.
Porque, quando ouvimos Clemente, Orígenes, Cipriano, Agostinho, Ambrósio, Rufino, Jerônimo e tantos outros, uma coisa se torna clara:
os Deuterocanônicos não eram estranhos à vida intelectual, litúrgica e doutrinal da Igreja antiga.
Eles estavam presentes.
E, em numerosos testemunhos, estavam presentes precisamente como Escritura.
Notas
[1] MICHUTA, Gary. G. O Caso dos Deuterocanônicos – Evidências e Argumentos. Tradução de Alessandro Lima. 1a edição. Edições Veritatis Splendor, Brasília/DF: 2025.










