Cânon Bíblico
Por Alessandro Lima
Uma das objeções mais frequentes levantadas contra a canonicidade dos livros deuterocanônicos do Antigo Testamento consiste em afirmar que Nosso Senhor Jesus Cristo e os Apóstolos jamais os teriam utilizado ou reconhecido.
À primeira vista, tal argumento pode parecer convincente. Afinal, se os Apóstolos não considerassem esses livros como parte das Sagradas Escrituras, por que haveriam de utilizá-los?
O problema é que, quando examinamos cuidadosamente o texto do Novo Testamento, encontramos justamente o contrário.
Existem no Novo Testamento diversas passagens que apresentam notáveis paralelos literários e teológicos com os livros deuterocanônicos. Em alguns casos, encontramos acontecimentos narrados exclusivamente nesses livros sendo utilizados pelos autores sagrados em sua argumentação. Em outros, encontramos expressões e conceitos que revelam um contato muito próximo com a tradição textual da Septuaginta.
É importante, portanto, examinar essas evidências com atenção.
1. A Septuaginta era utilizada pelos Apóstolos
Antes de examinarmos as alusões aos deuterocanônicos, é necessário compreender um fato fundamental: os autores do Novo Testamento utilizaram amplamente a versão grega das Escrituras conhecida como Septuaginta, ou LXX.
Das aproximadamente 350 citações que o Novo Testamento faz do Antigo Testamento, pelo menos 300 procedem da versão grega.
Isso não é uma questão meramente secundária.
A Septuaginta não era simplesmente uma tradução diferente do texto hebraico. Ela constituía uma coleção de escritos utilizada no judaísmo de língua grega e que posteriormente foi recebida e utilizada amplamente pelos cristãos.
O próprio Novo Testamento oferece exemplos de citações cuja formulação corresponde à Septuaginta.
Em Mateus 1,23, por exemplo, São Mateus utiliza a palavra grega parthenos — “virgem” — ao citar Isaías 7,14. O estudo do cânon apresentado por Lima também chama atenção para Atos 7,14, onde Santo Estêvão menciona setenta e cinco descendentes de Jacó, conforme a tradição textual grega.
Portanto, não é possível estudar a relação entre o Novo Testamento e o Antigo Testamento ignorando a Septuaginta.
E aqui encontramos uma questão decisiva: a Septuaginta continha os livros que posteriormente seriam chamados pela Igreja Católica de deuterocanônicos.
Isso não significa, por si só, que todo livro existente em alguma coleção da Septuaginta deva necessariamente ser considerado inspirado. A própria história do cânon mostra que a coleção da Septuaginta era mais ampla que o cânon posteriormente reconhecido pela Igreja.
Mas significa que devemos ter muito cuidado antes de afirmar que os autores do Novo Testamento rejeitavam os livros deuterocanônicos.
2. O caso dos mártires dos Macabeus
Talvez a evidência mais impressionante esteja na Carta aos Hebreus.
Lemos:
“Alguns foram torturados, recusando aceitar a libertação, para poderem alcançar uma ressurreição melhor.”
(Hb 11,35)
Ora, onde encontramos, no Antigo Testamento, pessoas que foram torturadas, recusaram a libertação e fizeram isso esperando uma ressurreição?
A resposta encontra-se em 2Macabeus 6–7.
Ali encontramos Eleazar e, especialmente, os sete irmãos que foram torturados e mortos por recusarem-se a violar a Lei de Deus.
Um dos irmãos, antes de morrer, declara:
“Tu, malvado, nos privas da vida presente, mas o Rei do universo nos ressuscitará a uma vida eterna, se morrermos por fidelidade às suas leis.”
(2Mc 7,9)
Outro afirma:
“Um dia ressuscitaremos para a vida eterna.”
(cf. 2Mc 7,14)
A correspondência com Hebreus é extraordinária.
Em meu livro O Cânon Bíblico observo que, entre os livros protocanônicos do Antigo Testamento, não encontramos um episódio que reúna simultaneamente as características apresentadas em Hebreus 11,35: tortura, recusa da libertação e esperança de uma ressurreição melhor. A passagem corresponde precisamente ao relato dos mártires de 2Macabeus.
E há ainda uma evidência linguística particularmente interessante.
Hebreus 11,35 utiliza o termo grego tympanizō para descrever a tortura. Segundo a documentação apologética disponível, esse termo aparece de maneira excepcional na Bíblia grega para designar esse tipo de suplício: duas ocorrências encontram-se justamente em 2Macabeus 6,19.28, enquanto outra ocorre em Hebreus 11,35.
Não estamos, portanto, diante de uma vaga semelhança temática.
O autor da Carta aos Hebreus descreve precisamente os mártires cuja história encontramos em 2Macabeus.
E isso produz uma pergunta inevitável:
Se o autor inspirado de Hebreus estava simplesmente fazendo uma exposição da história sagrada de Israel, por que utilizaria como exemplo de fé justamente personagens cuja história não encontramos nos livros que hoje compõem o Antigo Testamento protestante?
A resposta mais natural é que essa tradição fazia parte do universo das Escrituras conhecido pelos destinatários da Carta aos Hebreus.
Como observa a própria obra de Alessandro Lima, a Carta aos Hebreus foi dirigida a cristãos de origem judaica, e sua referência aos mártires dos Macabeus constitui também um importante testemunho da familiaridade da tradição da Septuaginta entre os judeus.
3. O justo perseguido de Sabedoria 2
Outra passagem particularmente significativa encontra-se no Livro da Sabedoria.
Em Sabedoria 2,13-20 encontramos a descrição de um justo que se declara filho de Deus e cuja vida incomoda os ímpios. Estes decidem submetê-lo a insultos, torturas e finalmente a uma morte infame:
“Ele se gloria de ter Deus por pai. Vejamos, pois, se suas palavras são verdadeiras […] porque, se o justo é filho de Deus, Deus o defenderá e o tirará das mãos de seus adversários.”
(Sb 2,16-18)
Compare-se essa passagem com os acontecimentos da Paixão.
Os chefes dos sacerdotes zombam de Jesus:
“Salvou a outros, que se salve a si próprio, se é o Cristo, o escolhido de Deus!”
(Lc 23,35)
E, segundo São Mateus:
“Confiou em Deus; que Deus o livre agora, se é que o ama! Pois disse: ‘Eu sou o Filho de Deus’.”
(Mt 27,43)
A semelhança é impressionante.
O justo é chamado de filho de Deus.
Os adversários colocam sua confiança em Deus à prova.
O justo é submetido a insultos e torturas.
Finalmente, seus inimigos esperam que Deus intervenha para salvá-lo.
O próprio Alessandro Lima apresenta Sabedoria 2,13-21 como pano de fundo literário dos escárnios dirigidos contra Nosso Senhor durante a Paixão.
Naturalmente, uma alusão literária não é necessariamente uma fórmula explícita de citação. Mas o conjunto dos elementos é significativo: o Novo Testamento apresenta a Paixão de Cristo em termos que correspondem de maneira extraordinariamente próxima ao retrato do justo sofredor apresentado pelo Livro da Sabedoria.
4. A Sabedoria e a revelação de Cristo
Há ainda outro aspecto importante.
O Novo Testamento não apenas conhece temas presentes nos livros deuterocanônicos; em determinadas passagens, ele utiliza uma linguagem teológica que encontra paralelos muito próximos nesses escritos.
É o caso da relação entre Sabedoria 7,25-26 e Hebreus 1,3.
O Livro da Sabedoria afirma:
“A Sabedoria é um sopro do poder de Deus, efusão pura da glória do Onipotente […] Ela é o esplendor da luz eterna […] imagem da sua bondade.”
(Sb 7,25-26)
Já a Carta aos Hebreus afirma sobre o Filho:
“Ele é o resplendor da sua glória e a expressão de sua substância.”
(Hb 1,3)
A linguagem não é idêntica, evidentemente, mas o paralelismo teológico merece atenção. O Catecismo, inclusive, emprega Hebreus 1,3 ao falar de Cristo como “esplendor da sua glória e imagem da sua substância”, ao mesmo tempo em que apresenta a linguagem de Sabedoria 7 sobre o esplendor e a imagem da Sabedoria.
Isso demonstra, no mínimo, que a tradição teológica do Novo Testamento não pode ser estudada isoladamente do ambiente literário e teológico em que os livros deuterocanônicos estavam inseridos.
5. Não se trata de uma única passagem isolada
Alguém poderia objetar:
“Tudo isso não passa de coincidência. O Novo Testamento simplesmente utilizou temas que também aparecem nos deuterocanônicos.”
Essa possibilidade precisa ser considerada.
Por isso, o argumento não deve depender de uma única passagem.
Temos um conjunto de evidências.
Além de Hebreus 11,35 e Sabedoria 2,13-21, a obra de Alessandro Lima chama atenção para outras relações entre o Novo Testamento e os deuterocanônicos.
Por exemplo, Apocalipse 8,2-5 apresenta os sete anjos que assistem diante de Deus e a apresentação das orações dos santos diante do Senhor. A obra identifica nesse texto um importante pano de fundo literário em Tobias 12,12-15, onde o Arcanjo Rafael declara ser um dos sete anjos que assistem diante da presença do Senhor e afirma apresentar as orações diante de Deus.
Temos, portanto, uma série de relações que merecem ser consideradas conjuntamente.
6. “Mas Jesus nunca disse: este livro é inspirado”
Aqui chegamos a uma objeção frequentemente apresentada.
“Jesus nunca disse explicitamente: ‘O Livro da Sabedoria é inspirado’.”
O problema dessa objeção é que ela utiliza um critério que, se aplicado de maneira consistente, produziria consequências muito maiores.
Se um livro só pudesse ser reconhecido como Escritura caso Nosso Senhor o citasse nominalmente, teríamos de perguntar: onde está a citação explícita de Ester? Onde está a citação explícita de Juízes? Onde está a citação explícita de Crônicas? E onde está a citação explícita de diversos outros livros cuja canonicidade ninguém contesta?
O próprio estudo de Alessandro Lima observa que vários livros do Antigo Testamento não são citados diretamente por Jesus ou pelos Apóstolos. Portanto, a ausência de uma citação nominal não pode constituir, por si só, prova de não-canonicidade.
Além disso, existe uma questão ainda mais fundamental.
Onde a própria Bíblia apresenta uma lista inspirada dos livros que devem compor a Bíblia?
Não encontramos no texto bíblico um índice inspirado contendo a lista completa dos livros do Antigo e do Novo Testamento.
Por isso, a questão do cânon não pode ser resolvida simplesmente perguntando: “Onde a Bíblia diz que este livro pertence à Bíblia?”
A questão é anterior:
Quem recebeu de Deus a autoridade para reconhecer quais escritos pertencem às Sagradas Escrituras?
É justamente aqui que o problema do cânon nos conduz à Tradição e à Igreja.
7. A questão do cânon não começou com Lutero
Outro erro bastante comum é imaginar que os livros deuterocanônicos foram acrescentados pela Igreja Católica no Concílio de Trento.
A história documentada nas obras utilizadas para este estudo mostra outra realidade.
Os deuterocanônicos já eram utilizados pelos cristãos antigos e aparecem em diferentes testemunhos e coleções cristãs. A própria tradição manuscrita cristã anterior à Reforma testemunha sua presença. O Concílio de Florença, ocorrido antes da Reforma Protestante, também os confirmou.
Portanto, o problema histórico não é explicar quando a Igreja Católica teria “inventado” esses livros.
É preciso explicar por que eles já estavam presentes na tradição bíblica cristã muito antes do século XVI.
E aqui o testemunho do Novo Testamento possui importância especial.
Conclusão
Quando colocamos lado a lado a Septuaginta, os livros deuterocanônicos e o Novo Testamento, encontramos um quadro que não pode ser ignorado.
Os Apóstolos utilizaram amplamente a Septuaginta. Das aproximadamente 350 citações do Antigo Testamento encontradas no Novo Testamento, pelo menos 300 procedem da versão grega.
Encontramos no Novo Testamento referências e alusões a tradições preservadas nos livros deuterocanônicos.
Encontramos, em Hebreus 11,35, a descrição dos mártires de 2Macabeus 6–7, acompanhada de correspondências linguísticas particularmente significativas.
Encontramos em Sabedoria 2 um retrato do justo perseguido que fornece um notável pano de fundo para a narrativa da Paixão de Nosso Senhor.
Encontramos ainda outras correspondências entre o Novo Testamento e os deuterocanônicos, como a relação entre Apocalipse 8 e Tobias 12.
Diante disso, não é correto afirmar simplesmente que os autores do Novo Testamento desconheciam os livros deuterocanônicos ou que estes lhes eram completamente estranhos.
Muito pelo contrário.
O testemunho do Novo Testamento demonstra que os primeiros cristãos viviam dentro de um ambiente bíblico no qual a Septuaginta possuía enorme importância e no qual as tradições literárias e teológicas preservadas nos deuterocanônicos eram conhecidas.
Mas há algo ainda mais importante.
A questão do cânon não pode ser resolvida apenas por uma coleção de citações. Afinal, o próprio Novo Testamento não contém uma lista explícita e inspirada de todos os livros que compõem a Bíblia.
A Escritura precisa ser recebida dentro da Tradição apostólica e interpretada no seio da Igreja.
Foi essa Igreja que preservou as Escrituras, transmitiu os textos apostólicos, reconheceu os livros inspirados e, ao longo dos séculos, discerniu quais escritos pertenciam ao depósito sagrado.
Assim, quando alguém afirma que a Igreja Católica teria “acrescentado” os deuterocanônicos à Bíblia, é necessário fazer uma pergunta muito simples:
Se esses livros foram acrescentados pela Igreja Católica, como explicar sua presença na tradição cristã anterior à Reforma e as evidências de sua utilização no ambiente bíblico do Novo Testamento?
A resposta a essa pergunta nos conduz inevitavelmente à história do cânon bíblico.
E a história, quando examinada sem preconceitos, mostra que a Bíblia não caiu pronta do céu com um índice inspirado na última página.
A Igreja recebeu, guardou, transmitiu e reconheceu os livros que compõem as Sagradas Escrituras.
É precisamente por isso que o estudo do cânon bíblico é também um estudo sobre a própria autoridade da Igreja.
Bibliografia
LIMA, Alessandro. O Cânon Bíblico – a origem da lista dos livros sagrados. 4 edição. Brasília, DF: 2022. Edições Veritatis Splendor.
MICHUTA, Gary. G. O Caso do Deuterocânon – Evidências e Argumentos. 1a Edição. Brasília, DF: 2025. Edições Veritatis Splendor.









