Cânon Bíblico
Por Alessandro Lima
Quando os autores do Novo Testamento pegavam na pena para registrar a vida de Jesus e a doutrina da Igreja nascente, de qual biblioteca eles retiravam suas metáforas, citações e conceitos teológicos?
A resposta revela um fato fascinante: os escritores inspirados do Novo Testamento viviam imersos no universo textual dos livros Deuterocanônicos. Longe de serem escritos estranhos ou periféricos, esses textos forneciam o vocabulário, as imagens proféticas e as categorias teológicas fundamentais para a comunidade judaico-cristã do primeiro século.
Existem evidências de caráter literário, teológico e linguístico de que os autores do Novo Testamento conheciam, utilizavam e aceitavam os livros Deuterocanônicos como escritos proféticos e parte integrante das Sagradas Escrituras. A seguir, exploramos as conexões mais surpreendentes dessa herança compartilhada.
A Provocação na Cruz e a Profecia de Sabedoria 2,18
Um dos momentos mais dramáticos do Evangelho de Mateus ocorre durante a crucificação de Jesus (Mateus 27,43). Ao zombarem de Cristo no Calvário, os chefes dos sacerdotes e anciãos pronunciam uma frase perfeitamente estruturada.
Longe de ser uma ironia espontânea, a fala dos líderes judeus resgata de forma direta uma passagem profética do Livro da Sabedoria. Observe o paralelismo textual imediato entre as duas passagens:
A zombaria no Calvário (Mateus 27,43): “Confiou em Deus; se Deus o ama, que o livre agora; porque ele disse: Eu sou Filho de Deus.”
A profecia sobre o justo (Sabedoria 2,18): “Se o justo é filho de Deus, Deus o amparará e o livrará das mãos dos seus inimigos.”
Ainda que o Salmo 22,8 mencione o socorro divino em termos gerais, ele não cita expressamente a vindicação do “Filho de Deus”. Ao desafiarem Jesus na cruz, os líderes religiosos citavam justamente o Livro da Sabedoria como uma autoridade profética reconhecida para colocar à prova a afirmação de Cristo.
Os Mártires Macabeus e a Rara Palavra Grega em Hebreus 11
Na célebre “galeria da fé” contida na Carta aos Hebreus, o autor sagrado faz referência a santos do Antigo Testamento que “foram torturados, não aceitando o seu resgate, para alcançarem uma ressurreição melhor” (Hebreus 11,35).
Essa citação refere-se diretamente ao relato do martírio de Eleazar e dos sete irmãos com sua mãe, narrado em 2 Macabeus 6–7.
A conexão vai além do tema e se confirma no campo da evidência linguística: para descrever o suplício desses mártires, o autor de Hebreus utiliza o termo grego raro tympanizo (“torturar no tambor”). Na Bíblia grega, essa palavra é empregada quase exclusivamente nesses relatos de martírio em Macabeus.
A Formulação da Cristologia e a Palavra Viva
A teologia sobre a identidade de Jesus e a natureza da Palavra de Deus em Hebreus e no Evangelho de João bebeu diretamente das fontes dos livros de Sabedoria e Eclesiástico:
- A Doutrina sobre o Filho (Hebreus 1,3): A descrição de Cristo como “o resplendor da sua glória e a imagem exata do seu ser” inspira-se diretamente na linguagem teológica de Sabedoria 7,26 (“ela é o refulgor da luz eterna… e a imagem da sua bondade”) para formular a doutrina sobre a divindade do Filho.
- A Palavra viva e penetrante (Hebreus 4,12-13): A imagem da Palavra de Deus como viva, eficaz e mais penetrante do que uma espada de dois gumes deriva de paralelismos e imagens construídos em Sabedoria 7,22-24 e Sabedoria 18,14-16, onde a Palavra Onipotente é retratada como uma espada afiada que corta todas as coisas.
- O Prólogo do Evangelho de João (João 1,1-14): A construção teológica sobre o Verbo pré-existente reutiliza temas de Eclesiástico 24 e Sabedoria 7. A afirmação de que a Palavra “habitou” entre os homens utiliza o termo grego skēnoō (“armou sua tenda”), refletindo Eclesiástico 24,7-8. Da mesma forma, o título de “Unigênito” (monogenēs) reflete a caracterização da Sabedoria presente em Sabedoria 7,21-22.
O Dilema dos Saduceus e o Livro de Tobias
No Evangelho de Mateus (Mateus 22,23-34), os saduceus tentam encurralar Jesus apresentando um dilema teológico sobre a ressurreição: a história hipotética de uma mulher que se casou sucessivamente com sete irmãos, tendo todos falecido sem deixar descendência.
Esse cenário não foi uma invenção aleatória dos saduceus. Ele se baseia diretamente na história de Sara, registrada no Livro de Tobias (Tobias 3,8.15).
Diante do questionamento, Jesus não rejeita o relato e nem invalida o livro, mas limita-se a corrigir a má interpretação dos saduceus a respeito da vida futura e da ressurreição.
Jesus como a Personificação da Sabedoria e Metáforas Sociais
A autorrevelação de Jesus nos Evangelhos e as exortações morais do Novo Testamento contêm paralelos profundos com os escritos deuterocanônicos:
O contraste da busca e da plenitude:
- A busca contínua em Eclesiástico 24,21: “Os que me comem terão ainda fome, e os que me bebem terão ainda sede.”
- A plenitude em Cristo (João 6,35): “Eu sou o pão da vida; quem vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede.”
Ao declarar essas palavras, Jesus evoca e cumpre a passagem de Eclesiástico, apresentando-se não apenas como um mestre, mas como a própria Sabedoria encarnada.
Além disso, os ensinamentos práticos da Igreja primitiva também resgatam essa tradição:
- Metáforas de Justiça Social (Tiago 5,3): A advertência de Tiago aos ricos de que o seu ouro e a sua prata “enferrujaram” apoia-se na metáfora de Eclesiástico 29,10, na qual a riqueza acumulada sem ser usada para a caridade é descrita como “enferrujar debaixo de uma pedra”.
O Impacto da Septuaginta (LXX) e do Vocabulário Grego
A explicação para o uso fluido e natural desses textos pelos autores do Novo Testamento reside na versão das Escrituras adotada por eles e por suas comunidades:
- Uso preferencial: Cerca de 80% das citações do Antigo Testamento presentes no Novo Testamento derivam diretamente da Septuaginta grega (LXX).
- Integração textual plena: A Septuaginta do primeiro século trazia os livros Deuterocanônicos integrados aos demais livros do Antigo Testamento sem qualquer distinção ou nota de inferioridade. Os argumentos desenvolvidos no Novo Testamento pressupõem leitores que conheciam a Septuaginta e os fatos nela narrados.
- Vocabulário compartilhado: O Novo Testamento utiliza mais de uma centena de palavras gregas específicas cujo único registro anterior em toda a Bíblia grega ocorre justamente dentro dos livros Deuterocanônicos.
Uma Nova Perspectiva sobre os Leitores do Primeiro Século
As evidências literárias, teológicas e linguísticas deixam claro que os autores e leitores do Novo Testamento no primeiro século viviam totalmente imersos no universo textual dos livros Deuterocanônicos. Longe de serem escritos secundários, esses textos forneceram as categorias conceituais, as imagens proféticas e o vocabulário que ajudaram a formular as doutrinas centrais sobre Cristo e a Igreja.
Ao constatar que os próprios autores do Novo Testamento liam, citavam e aplicavam os livros Deuterocanônicos ao ministério de Jesus, surge uma provocação para a nossa própria leitura: como a redescoberta dessas conexões transforma a nossa compreensão das Escrituras?
Bibliografia
LIMA, Alessandro. O Cânon Bíblico – a origem da lista dos livros sagrados. 4 edição. Brasília, DF: 2022. Edições Veritatis Splendor.
MICHUTA, Gary. G. O Caso do Deuterocânon – Evidências e Argumentos. 1a Edição. Brasília, DF: 2025. Edições Veritatis Splendor.








