Cânon Bíblico
Por Alessandro Lima
Você já parou para pensar que a Bíblia não caiu do céu pronta, com a lista de livros fechada desde o primeiro século? Eu também achava isso por muito tempo. A verdade é que o cânon do Antigo Testamento foi se formando aos poucos, no meio da oração, da pregação e de muita discussão entre os primeiros cristãos.
Neste post, quero mostrar como os Pais da Igreja usavam os livros deuterocanônicos (Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, 1 e 2 Macabeus, mais trechos de Daniel e Ester), por que São Jerônimo teve dúvidas sobre eles e como a questão foi encaminhada.
Não eram só leitura edificante
Do século I ao IV, muitos dos principais autores cristãos citaram esses livros como Escritura, e não apenas para dar conselhos morais. Eles ajudaram a sustentar ideias centrais da fé.
Um exemplo é a criação a partir do nada, que encontrou apoio em 2 Macabeus 7,28. Outro vem da crise ariana, no século IV. Ário negava que o Filho fosse plenamente divino, e Atanásio recorreu a Sabedoria 7,25-26, que descreve a sabedoria como reflexo da luz eterna. A imagem ajuda a entender por que o Credo diz “Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro”. Orígenes já tinha usado o mesmo trecho para falar da divindade do Filho.
Veja alguns nomes que recorreram a esses livros:
- Clemente de Roma (fim do século I) cita Sabedoria 12,12 e apresenta Judite como exemplo de fé.
- Irineu de Lião (c. 180) usa Sabedoria 6,18-19 em Contra as Heresias.
- Tertuliano (c. 160-220) alude a Sabedoria 1,6 e usa os relatos de Macabeus sobre batalhas no sábado para argumentar que o repouso sabático era temporário.
- Clemente de Alexandria (m. c. 215) chama Eclesiástico e Sabedoria de “Escritura” e cita Tobias 4,15.
- Cipriano de Cartago (m. 258) cita Eclesiástico, Sabedoria, Tobias, Baruc e Macabeus. Ao citar Eclesiástico 3,30, escreve que “o Espírito Santo fala nas Sagradas Escrituras”.
- Orígenes (c. 185-254) defende a história de Susana e lembra que as igrejas liam esses textos publicamente.
- Atanásio (296-373) se apoia em Sabedoria e Baruc contra os arianos.
- Agostinho (354-430) cita Sabedoria e Eclesiástico em A Doutrina Cristã, A Cidade de Deus e A Trindade.
No século IV, Hilário de Poitiers, Basílio, Gregório de Nazianzo, Ambrósio e João Crisóstomo também recorrem a eles em sermões e tratados.
Jerônimo e a “Verdade Hebraica”
As dúvidas mais famosas aparecem no fim do século IV. Ao preparar a tradução latina da Bíblia (a Vulgata), Jerônimo defendeu a Veritas Hebraica: só deveria ter peso doutrinal o que existia no texto hebraico preservado pelos judeus. Nos prefácios a Samuel e Reis e aos livros de Salomão, ele trata os deuterocanônicos como livros “eclesiásticos”, bons para leitura, mas sem a mesma autoridade.
Ele não ficou sem resposta. Rufino de Aquileia, antigo amigo e depois adversário, o criticou na Apologia contra Jerônimo e no Comentário sobre o Símbolo dos Apóstolos. Para Rufino, a Igreja não devia ajustar sua Bíblia ao cânon dos judeus. Devia seguir o que recebera dos apóstolos e lia na liturgia. Ele também reclamou da ideia de tirar de Daniel as histórias de Susana, do Cântico dos Três Jovens e de Bel e o Dragão.
Vale lembrar que Jerônimo não era o único com reservas. Atanásio (na Carta Festal 39) e Cirilo de Jerusalém também deixaram listas sem alguns desses livros.
A resposta dos concílios
No norte da África, o assunto foi tratado em concílios. Os de Hipona (393) e Cartago (397), com forte influência de Agostinho, aprovaram uma lista que incluía os sete deuterocanônicos e os acréscimos a Daniel e Ester. Na prática, mantiveram o que as igrejas já liam na liturgia.
Em 405, o Papa Inocêncio I enviou ao bispo Exupério de Toulouse uma carta com uma lista equivalente. Para a tradição católica, ela confirma o mesmo cânon para a Igreja de Roma. Historiadores lembram, porém, que Hipona e Cartago foram concílios regionais e que a discussão continuou em partes da Igreja por séculos. A definição solene só veio no Concílio de Trento, em 1546.
E as listas que omitem esses livros?
É comum ouvir que listas antigas de Melitão de Sardes, Orígenes, Cirilo de Jerusalém e Atanásio provam que os deuterocanônicos eram rejeitados. A explicação tradicional olha para o propósito de cada texto:
- Debate com judeus: Melitão registrou os livros aceitos pelos judeus para ter um terreno comum de conversa.
- Ensino de iniciantes: Cirilo escreveu catequeses para novos convertidos e recomendava começar por livros sem controvérsia externa.
- Prática real: esses autores continuaram citando os deuterocanônicos como Escritura em outras obras.
Essa leitura é razoável, mas continua sendo uma interpretação. Muitos Pais distinguiam entre livros “canônicos” e “eclesiásticos”, e isso não desaparece só com um argumento de contexto.
Conclusão
As fontes mostram que os deuterocanônicos estiveram presentes na vida da Igreja desde cedo, na liturgia, na pregação e em debates doutrinários importantes. A objeção de Jerônimo foi relevante, mas gerou reação, e Hipona, Cartago e Inocêncio I marcaram uma resposta que acabou prevalecendo na tradição católica e ortodoxa.
O cânon não foi decretado de uma vez. Foi sendo reconhecido ao longo do tempo, pelo uso e pelo debate, até chegar à forma que está nas Bíblias católicas.
Bibliografia
LIMA, Alessandro. O Cânon Bíblico – a origem da lista dos livros sagrados. 4 edição. Brasília, DF: 2022. Edições Veritatis Splendor.
MICHUTA, Gary. G. O Caso do Deuterocânon – Evidências e Argumentos. 1a Edição. Brasília, DF: 2025. Edições Veritatis Splendor.










